March 4, 2022

Reflexões: sobre guerras e portfólios

por Daniel Perdomo

Guernica, ano 1937 por Pablo Picasso, é a obra de arte que estampa a carta deste mês. Nos mostra as agruras da guerra e o sofrimento que ela impõe aos indivíduos, especialmente aos civis. 

Remeto a este quadro para nos lembrar que conflitos armados entre nações trazem diversos efeitos colaterais para os mercados financeiros, mas que eles não se sobrepõem ao sofrimento humano.

Feita esta introdução, trago algumas reflexões sobre o momento que estamos vivendo:

 

- A violência é uma componente da natureza humana e exige constante vigilância. 

- O instinto animal se sobrepõe à humanidade das pessoas em períodos de guerra.

- Paz compelida é a semente do próximo conflito. 

- Conflitos armados são sempre possíveis, apesar de imprevisíveis. Indiferentemente de quão positivo seja o cenário social, político e econômico. 

- Quem luta por um propósito maior, como defender a própria família, batalha com mais afinco.

- Políticos possuem estratégias de curto prazo, visando popularidade e o próximo mandato. Com frequência, assumem riscos desnecessários.

- Falsa narrativa é uma arma de guerra.

- Quando países cometem excessos e estes se estendem para além do seu perímetro, a crise desencadeada será mais do que proporcional ao abuso inicial.

- Eventos imprevisíveis e com consequências escaláveis ocorrerão com mais frequência. É essencial que estejamos sempre preparados para os efeitos pendulares do mercado e para cenários adversos. Cientes de que a realidade poderá ser mais dura do que esperamos.

- Em momentos de fortíssima assimetria negativa global (como uma pandemia ou um conflito mundial), a correlação entre vários ativos se torna forte. Mesmo entre aqueles considerados descorrelacionados em momentos de maior estabilidade. 

- Após a crise de 2008, o mercado financeiro global foi educado a não reagir exacerbadamente aos conflitos geopolíticos por terem certeza de que os bancos centrais amenizariam todo e qualquer tipo de volatilidade financeira. Só não consideraram que um Banco Central pode ter sua principal ferramenta de controle (reservas internacionais) bloqueadas por sanções econômicas. 

- Alocação de ativos verdadeiramente alinhada ao perfil de investidor (sentido amplo) é uma vantagem imprescindível para resultados consistentes ao longo do tempo. Estar corretamente posicionado impossibilita que alguns vieses psicológicos atuem em desfavor dos resultados de médio e longo prazos.

- Portfólios com reserva em liquidez e com estratégias flexíveis são os que entregam resultados mais sólidos e sobrevivem ao longo do tempo. 

- Os mercados estão crescentemente mais instáveis e, normalmente, as perdas irrecuperáveis de um portfólio são provenientes do descasamento entre as exigibilidades e as disponibilidades. Evite a alavancagem.

Este não seria o tema tratado neste mês. Entretanto, pensar sobre os pontos acima colabora com a construção do conhecimento necessário para que continuemos com a abordagem disciplinada para os portfólios, obtendo resultados sustentáveis ao longo do tempo.

Saber qual caminho seguir é importante, mas nos mantermos nele em momentos de incerteza requer esforço mental, foco no controle de risco e fé que a humanidade superará mais um momento difícil de sua história.

 

Daniel Perdomo.

Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.