November 3, 2021

Questione

por Daniel Perdomo

Parte da nossa rotina no escritório é direcionada ao ato de questionar. Não consideramos a hipótese de existir construção do conhecimento sem essa atitude. Questionamos – a todo momento – os gestores de fundos, os economistas, os analistas de ações, nossos sócios e pares, os clientes, as nossas convicções...

Acreditamos que perguntar é instrumento essencial para gerarmos valor além do resultado financeiro dos portfólios, já que estimula a troca de ideias e o aprendizado, instiga a descoberta de novos caminhos e cenários inexplorados, constrói pontes e uma relação de confiança entre aqueles que orbitam nosso ecossistema. 

As Cartas que escrevemos são um instrumento formidável para os fins acima citados e esta nos permitirá responder aos questionamentos que recebemos dos leitores. Esperamos que o ciclo virtuoso da comunicação aberta e transparente que nos propusemos a fazer perdure no longo prazo.

Leitor 1.
“Por que o Governo não controla a dívida e ajuda o Banco Central a controlar a inflação? A inflação já está alta e vivem anunciando mais gastos...”

Sem entrar no mérito político-partidário (e se os gastos públicos em questão são necessários ou não), resumimos da seguinte forma, com um exemplo:

Os governos possuem instrumentos fiscais (gastos, impostos, taxações) para atuar nos ciclos econômicos. No início da pandemia, houve uma ruptura nos diferentes componentes do Produto Interno Bruto (PIB), como a redução do consumo das famílias e dos investimentos empresariais na expansão das atividades. Para não deixar que o desemprego assolasse o país e as pessoas ficassem desamparadas, o Governo Federal criou programas de transferência de renda estimulando o mercado consumidor. Esses programas geram aumento da dívida pública (déficit) e pressão nos preços dos produtos. 

Supostamente, dentro de uma corrente da macroeconomia, os governos deveriam aumentar seus gastos (déficit) em momentos de queda ou redução do PIB para estimular a economia, e quando as economias estiverem fortes deveriam equilibrar as contas (gastando menos), já que a arrecadação através de impostos e tarifas será impulsionada pelo crescimento – gerando superávit.

Contudo, temos que trabalhar com a realidade como ela é! Terminamos a resposta com duas perguntas para reflexão:

Qual seria o incentivo da classe política (de forma generalizada, embora existam políticos competentes e bem-intencionados) em reduzir incentivos e promover menos gastos públicos, seja qual for o cenário econômico, se existe a preocupação com os pleitos eleitorais? Cortar gastos e a transferência de renda é salutar para angariar votos?

Leitor 2.
“Por que ouço falar que o Ibovespa tende a cair sempre que divulgam que a SELIC poderá subir mais do que o esperado?”

Normalmente, ao investir em alguma empresa (comprando uma ação) o investidor espera que os fluxos de caixa da companhia (entrada e saídas de recursos dos caixas das empresas) sejam positivos e crescentes (forte geração de lucros). Para estimarem o valor da empresa no futuro, a potencial valorização do capital e o quanto vale a pena pagar por cada ação, os possíveis acionistas projetam os fluxos de caixa futuros e “descontam” para o valor presente (para a atualidade). Em outras palavras, buscam identificar o quanto valem hoje os fluxos de caixa que a empresa ainda produzirá. Isso é feito já que o valor do dinheiro recebido no futuro é menor do que o valor do dinheiro recebido no presente. Os motivos:

  • Existe uma taxa livre de risco que permite aos investidores transformarem um real, recebido e investido hoje, em um valor maior no futuro, sem incorrer em risco;
  • A inflação reduz o poder de compra do dinheiro recebido no futuro;
  • Existe o risco de o fluxo de caixa esperado não ocorrer e, por isso, os investidores exigem um prêmio para assumir esse risco.

Os três itens acima somados – taxa livre de risco, o prêmio relacionado à inflação e o prêmio de risco das próprias ações – formam a taxa de desconto.

Como a taxa livre de risco utilizada no Brasil é a SELIC, a taxa de desconto será maior quanto maior for a SELIC. Se o desconto é maior, o valor estimado da ação no presente será menor. O conjunto destas avaliações mais baixas pode fazer com que o Ibovespa retraia, indo ao encontro das expectativas dos investidores em relação ao preço das ações e ao valor das empresas.

Leitor 3.
"Nas cartas anteriores foram citadas algumas premissas para escolher boas ações. Se tivesse que escolher apenas uma premissa, qual seria?”

Nenhuma premissa deverá ser considerada individualmente. Contudo, no intuito de responder ao questionamento, escolhemos os lucros, avaliando o histórico da empresa e suas projeções. 

Os lucros correspondem à diferença entre as receitas da companhia e todos os seus custos de produção. Se for uma empresa superavitária, esses lucros podem se tornar o fluxo de caixa dos acionistas de diferentes formas, sendo as principais o pagamento de dividendos aos sócios e, caso não ocorra a distribuição, a utilização dos lucros retidos para impulsionar o fluxo de caixa futuro para os acionistas.

Os lucros retidos podem ser utilizados pela empresa para: 

  • Recomprar ações da própria empresa, reduzindo o número de ações em circulação (e aumentando o lucro disponível por ação dos detentores). 
  • Investir em projetos que gerarão novas receitas e maior lucro potencial.
  • Adquirir novas companhias, que poderão gerar dividendos no futuro para os atuais acionistas.
  • Reduzir dívidas que, por conseguinte, diminuirão as despesas com juros (liberando valor para os acionistas).

Portanto, geração consistente de lucros é um dos principais pontos a serem buscados, por investidores, em uma companhia.

Leitor 4.
“Tenho 18 anos, meu pai me mostra as Cartas Mensais... Para quem é novo e ainda não começou a investir, o que você falaria?”

Diria que investir não é simples. Que existem muitas variáveis envolvidas e entendê-las demanda tempo e dedicação. 

Acredito que o principal conselho para quem está começando no mundo dos investimentos seja ler o máximo que puder, sobre diferentes temas (inclusive as nossas Cartas), e desenvolver ao máximo a sua racionalidade. A probabilidade de conseguir bons resultados no longo prazo é maior para aquele investidor que consegue dosar o aspecto técnico com a objetividade, equilibrando os sentimentos de “ganância” (quando os mercados estão em alta) e “medo” (quando estão em queda). Normalmente, quando o mercado está oscilando nesses extremos é que as oportunidades se mostram mais presentes. 

Por último: comece o quanto antes a poupar. Os juros compostos trabalharão a seu favor!

Pierre Abélard (ou Pedro Abelardo, em português)

foi um filósofo e lógico francês, considerado um dos mais importantes do Século XII. 

“The key to wisdom is this - constant and frequent questioning, for by doubting we are led to question and by questioning we arrive at the truth”.

Pierre Abélard

Em tradução livre: a chave para a sabedoria é isso – questionar de forma constante e frequente, pois ao duvidar somos levados a questionar, e questionando chegamos à verdade”.

Daniel Perdomo.

Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.