June 6, 2022

Perguntas e Respostas

por Daniel Perdomo

Neste mês, utilizaremos o espaço para responder aos principais questionamentos enviados pelos leitores da Carta Mensal, com uma linguagem mais simples se compararmos aos termos técnicos usualmente utilizados em publicações sobre o mercado. A dúvida de um pode ser a dúvida de muitos, e essa interação é de grande relevância para a construção de portfólios consistentes ao longo do tempo. Foram várias perguntas que serão respondidas dentro de quatro temas:

1. A queda das bolsas nos Estados Unidos pode influenciar o comportamento da inflação americana no médio prazo?

Para responder a esta questão, é importante trazer o conceito de efeito-riqueza. Em resumo, ele nos diz que os agentes econômicos estão mais propensos a consumirem quando percebem que o valor do seu patrimônio está aumentando. Ou seja, gastam mais porque se sentem mais ricos. 

Recentemente, notamos uma queda nos índices acionários americanos:

Tendo em vista que mais de 50% dos americanos investem em ações e que as expectativas influenciam o comportamento dos consumidores, com a queda das ações poderemos ter uma redução do consumo por parte dos estadunidenses, aliviando a demanda por produtos e serviços – e, por conseguinte, removendo alguma pressão inflacionária.

O efeito-riqueza é bastante estudado pela academia americana. Conforme Cieslak & Vissing-Jorgensen (2020), desde a década de 1990 os retornos negativos das ações são acompanhados de rebaixamentos nas expectativas de crescimento do Fed e preveem acomodações de políticas econômicas. A análise textual dos documentos do FOMC revelou que os formuladores de políticas estão atentos ao mercado de ações. 

FOMC

Federal Open Market Committee (Comitê Federal de Mercado Aberto), responsável por estabelecer a política monetária dos EUA no âmbito do Federal Reserve, o banco central americano. Equivalente ao nosso COPOM.

2. Como as expectativas sobre a inflação impactam as rentabilidades dos ativos financeiros?

Aswath Damodaran, professor da New York University, em seu artigo In Search of a Steady State: Inflation, Interest Rates and Value (2022) utilizou um quadro bastante elucidativo:

Aswath Damodaran

é professor de finanças corporativas e valuation na Stern School of Business.

Damodaram argumenta que, para entender o impacto da inflação sobre os valores dos ativos, é preciso decompô-la em seus componentes esperados e inesperados. Os primeiros aparecem nos retornos esperados que você exige dos investimentos, e os segundos atuam como fatores de risco. Nesse sentido, é a quebra de expectativas que ocasionará as maiores oscilações nos preços. 

3. Como o real se desvaloriza ou valoriza perante o dólar?

No curto prazo, vários sinais e ruídos podem impactar o preço do dólar em relação ao real, com os preços definidos pela oferta e pela demanda. Focarei em aspectos mais estruturais, que definirão o preço entre as moedas para um horizonte de tempo maior e que devem ser observados conjuntamente.

Liquidez da moeda norte americana: quanto maior a oferta de moeda na economia americana, maior será a possibilidade de um enfraquecimento do poder de compra do dólar perante outras moedas. Isso ocasionaria, por exemplo, uma valorização do real. Se o Federal Reserve praticar uma política monetária mais restritiva (como aumento de juros ou retirada de recursos do mercado), a liquidez será reduzida e poderá valorizar o dólar frente a outras moedas.

Diferencial entre as taxas de juros de Brasil e Estados Unidos: O diferencial entre as taxas de juros praticadas nos países pode definir o acirramento do fluxo de capitais em direção a um deles, através das operações denominadas carry trade. Esta operação ocorre quando um investidor pega dinheiro emprestado em um país com juros baixos e aplica o montante em outro país com taxas de juros mais altas. Portanto, quanto maiores as taxas brasileiras em relação às americanas, maior a chance de o real se valorizar.

Diferencial de crescimento entre Brasil e Estados Unidos: países com forte crescimento tendem a atrair mais recursos internacionais, já que tendem a demonstrar maiores oportunidades de investimentos. Assim, exemplificando, se os Estados Unidos crescerem mais do que Brasil, o dólar tende a se valorizar; e se o Brasil se aproximar do crescimento americano ou superá-lo, tende a ocorrer um fluxo de dólares para o nosso país e o real se valorizaria ante o dólar.

Solidez fiscal: quanto maior a solidez fiscal do Brasil (capacidade de se endividar e honrar as dívidas), maior a probabilidade de que investidores estrangeiros remetam dólares para nosso país – e esse fator também contribui para a apreciação do real.

Notem que, mesmo dentro de uma visão de longo prazo, são vários os fatores que impactam no valor relativo das moedas.

4. Qual o impacto de uma desaceleração da economia americana para o Brasil?

Inicialmente, temos que elencar quais os principais motivos que podem levar a economia americana a uma forte desaceleração: elevações dos juros básicos, menor oferta de mão de obra e resistência inflacionária. Estes fatores, conjuntamente, impactarão negativamente as taxas de crescimento do PIB, já que ocasionam queda tanto do consumo das famílias quanto dos investimentos das empresas. 

O arrefecimento do crescimento americano poderá reduzir o fluxo de comércio com o Brasil, afetando as exportações de bens e serviços brasileiros para os EUA. A possível redução da demanda por produtos brasileiros fará com que as empresas nacionais produzam menos, o que pode gerar efeitos colaterais em nosso país – como o desemprego.

Importante ressaltar que, conforme informações datadas de dezembro de 2021 pelo Ministério da Economia, os Estados Unidos são o segundo maior importador de bens brasileiros, sendo a China o principal parceiro econômico do Brasil.

Portanto, apesar da grande importância dos Estados Unidos, e levando em consideração apenas esses números, um arrefecimento da economia chinesa geraria impacto ainda mais significativo na economia brasileira.

Esperamos ter contribuído com a elucidação de temas importantes e sensíveis aos nossos investidores e leitores.

Referências

Cieslak, Anna and Vissing-Jorgensen, Annette, The Economics of the Fed Put (April 2020). CEPR Discussion Paper No. DP14685, Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=3594319

https://aswathdamodaran.blogspot.com/2022/05/in-search-of-steady-state-inflation.html

https://www.gov.br/produtividade-e-comercio-exterior/pt-br/assuntos/comercio-exterior/estatisticas/balanca-comercial-brasileira-acumulado-do-ano

Daniel Perdomo.

Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.