February 3, 2022

Margem de Segurança

por Daniel Perdomo

No texto do mês anterior tratei a ideia de Futurologia, a sua corriqueira utilização no mercado financeiro e como a necessidade de sempre estarmos no controle das situações pode acarretar prejuízos ao portfólio. Neste documento, abordarei um contraponto a esta circunstância, uma ferramenta contra a incerteza simples de ser utilizada, mas pouco implementada nos investimentos: margem de segurança.

Antes de fazer a correlação direta com os portfólios, acredito que seja importante citar que o conceito de margem de segurança é amplamente aplicado na vida e nos negócios:

  • Os praticantes de paraquedismo trabalham com a hipótese de uma falha nos equipamentos (mesmo após as múltiplas checagens) e carregam dois paraquedas.
  • As instituições financeiras possuem diferentes backups dos dados dos seus clientes.
  • Alguns aviões possuem duas turbinas apesar de terem autonomia com apenas uma.

Nos exemplos acima, os participantes não sabem onde, como e quando um evento negativo pode ocorrer, contudo existe a concordância entre eles de que a ausência de margens de segurança pode resultar em perdas irrecuperáveis para a vida ou para os negócios. E essa possibilidade é mais do que suficiente para que sejam implementados mecanismos de proteção contra o desconhecido.

Então, por que o conceito de margem de segurança é pouco utilizado pelos investidores tendo em vista que para várias outras situações a presença é quase anímica? 

  • Desconhecimento natural e a impossibilidade de estabelecer relações de causa e efeito entre as diferentes classes de ativos e as variáveis que impactam os seus preços.
  • O forte apreço pela futurologia. É difícil considerar a hipótese de que nenhum ser humano consiga prever com acurácia e consistência o que poderá ocorrer.
  • A Síndrome de FoMO - Fear of Missing Out - que significa o medo de perder algo ou ficar de fora, e como ele direciona as decisões a favor das teorias, recomendações e investimentos “da moda”. O receio de “todo mundo ganhar, menos eu” desperta um sentido de urgência que impactará negativamente a escolha dos ativos.

Tendo em vista o exposto acima, o que seria margem de segurança para os investimentos e como aplicá-la?

O princípio Margem de Segurança, no mundo dos investimentos, foi difundido por Benjamin Graham que, em resumo, dizia que um investidor só deve comprar títulos quando o seu preço de mercado estiver consideravelmente abaixo do seu valor intrínseco. A significativa diferença entre o preço de mercado e o valor intrínseco é a margem de segurança que, no limite, diminui o risco de fortes marcações negativas e perdas irrecuperáveis.

O valor intrínseco é uma medida do valor de um ativo. Não existe uma fórmula específica e seu cálculo é mais subjetivo, já que os analistas podem incorporar aspectos quantitativos e qualitativos. 

Como descrito em nossos meios de comunicação, a preservação patrimonial é o nosso principal pilar, e acreditamos que os lucros são consequência desta premissa. Por isso, ampliamos o conceito de margem de segurança de Graham e explicamos para o cliente a importância de pensar o portfólio como um todo dentro deste princípio. 

Na Carta Investir é Preciso, citei alguns aspectos quantitativos e qualitativos que podem ser utilizados para que a margem de segurança esteja presente no processo decisório, na escolha dos ativos e na constituição dos portfólios. Relembrando:

Benjamin Graham

foi um economista inglês, considerado o criador do “buy and hold” (“comprar e manter”), estratégia de investimento em ações com foco em horizonte de longo prazo. Um de seus principais discípulos é Warren Buffet. 

O que observar ao escolher empresas (ações)

  1. Dívida equilibrada.
  2. Ações negociadas no Novo Mercado (segmento da Bolsa que exige elevado padrão de governança corporativa).
  3. Histórico de lucros anuais consistentes.
  4. Gestão idônea.
  5. Executivos de reconhecida capacidade técnica.
  6. Companhia sólida em seu ramo de atuação.
  7. Liquidez de negociação no Ibovespa.
  8. Existência de barreiras à entrada de competidores.
  9. Setor com possibilidade de crescimento ao longo do tempo.
  10. Responsabilidade socioambiental.

Fundos de Investimentos

  1. Possuam equipes de gestão.
  2. Possuam decisão consensual para escolha de ativos: se não houver consenso, o papel não será adquirido/investido.
  3. A área de gestão de risco tem poder decisão.
  4. Priorizam a liquidez de ativos para troca rápida de posições.
  5. Possuam stops nas posições.
  6. Estão sempre com proteções nas carteiras.
  7. A preservação do patrimônio é premissa.
  8. Possuam patrimônio líquido máximo predefinido (fecham os fundos para novas aplicações).
  9. Façam revisão diária do portfólio de investimentos.
  10. Não possuam alavancagem excessiva.
  11. A equipe trabalha em conjunto há um bom tempo.
  12. Principais gestores possuam experiência.
  13. Apresentem consistência ao longo dos anos e dos diversos momentos econômicos.

Crédito privado

  1. Escolher emissores com grau de investimento de acordo com o rating de crédito (quanto mais próximo do AAA, melhor) e acompanhar eventuais transições de rating até o vencimento do papel.
  2. Emissões com garantias reais (bens específicos destinados para garantir o pagamento dos investidores).
  3. Destinação dos recursos captados deve fazer sentido com a estrutura da empresa, com o cenário econômico e com as expectativas para o setor. 
  4. Empresas com balanços confiáveis e fluxo de caixa contínuo.
  5. Preferência por emissores de baixo risco setorial: energia elétrica, saneamento e ferrovias. 
  6. Limitar os prazos de vencimento.
  7. Papeis com fluxo de pagamentos periódicos (juros e amortização) para reduzir o risco. 

Portfólio

  1. Reserva de emergência.
  2. Cronograma de liquidez.
  3. Descorrelação entre estratégias.
  4. Diversificação geográfica.

Em conversa com um cliente sobre o tema, ainda em 2021, quando escrevi as premissas acima, fui indagado se a margem de segurança não se configura como um dispositivo conservador. E que, por isso, deveria ser empregado somente por investidores que são indecisos ou que não queiram correr riscos em busca de maiores retornos. Respondi que, se aplicada da maneira que discorremos nos parágrafos acima, a margem de segurança tem uma função diametralmente oposta. 

Ela permite que tomemos mais risco, mas sobrevivamos aos possíveis resultados negativos que não são previsíveis por nenhum modelo. O investidor que possui em seu portfólio uma margem para situações inimagináveis terá vantagem sobre aqueles que, em um evento aleatório negativo de grande magnitude, perdeu grande parte do seu patrimônio. É a sobrevivência no mercado que nos permite obter resultados acima da média e, ao observarmos o comportamento das principais classes de ativos no longo prazo, concluímos que as probabilidades de lucros estão ao nosso lado. 

É necessário deixar os juros compostos atuarem!

Constituir portfólios é ciência e arte ao mesmo tempo. É uma atividade de risco e dentro de toda assimetria e conflito de informações que vivemos temos que fixar parâmetros de controle que mitiguem as probabilidades da ruína. Não temos como dissociar os lucros do portfólio do controle de risco, são variáveis não separáveis.

O objetivo da margem de segurança é fazer com que a futurologia não seja tão necessária. É a única forma de navegar com segurança em um universo dominado pela incerteza.

A margem de segurança é um escudo contra os nossos vieses psicológicos!

A margem de segurança é o plano H para quando os planos A-B-C-D-E-F-G fracassarem!

A margem de segurança é o plano para quando não há mais planos!

“Uma margem de segurança é alcançada quando os títulos são comprados a preços suficientemente abaixo do valor subjacente para permitir erro humano, má sorte ou extrema volatilidade em um mundo complexo, imprevisível e em rápida mudança.”

Seth Andrew Klarman

Seth Andrew Klarman

é um gestor de hedge funds norte-americanos conhecido por ser um seguidor assíduo dos ensinamentos de Benjamin Graham, em especial na compra de ativos impopulares por valores baixos buscando maior margem de segurança.  

Daniel Perdomo.

Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.