December 2, 2021

Interdisciplinaridade

por Daniel Perdomo

Para que o investidor tenha resultados superiores, dentro dos diferentes perfis pessoais, familiares e empresariais estabelecidos, não basta que o assessor entregue apenas conhecimento técnico sobre produtos financeiros, matemática e economia. A fluência nestes temas é o ponto de partida, mas não deve ser o destino final.

Acredito na interdisciplinaridade e nos resultados que ela proporciona já que, através da interação de disciplinas supostamente não correlatas, é possível estabelecer pontes e reflexões que permitirão melhor compreensão da realidade e alinhamento às necessidades dos indivíduos. A interdisciplinaridade é aquilo que repele a fragmentação e a segregação, que forma a unidade dentro da multiplicidade e que nos aproxima de visualizarmos o todo. 

Neste momento, gostaria de trazer conceitos que estão fora do aparato tecnicista do mercado financeiro, mas que a meu ver são de relevância para a edificação do conhecimento sobre um tema que estou sendo bastante questionado (no melhor sentido da expressão, como dito na última Carta), que está presente em nosso cotidiano e que impacta as nossas vidas:

A inflação.

O primeiro conteúdo, relacionado à Física, se refere ao princípio da relatividade que foi estudado e desenvolvido por várias pessoas como Galileu Galilei e Albert Einstein, culminando na teoria da relatividade. O intuito aqui não é desenvolver matematicamente as fórmulas e explicar fragmentos específicos como a velocidade da luz, mas sabermos que dois referenciais distintos apresentam conclusões perfeitamente factíveis, ainda que diferentes, de um mesmo efeito. Segundo Galileu, não existe sistema de referência absoluto pelo qual todos os movimentos possam ser medidos.

Albert Einstein

O que pretendo inferir do escrito acima é que nossa mente é subjetiva e que as nossas opiniões e emoções são relativas, dependem totalmente das nossas experiências, dos ângulos sob os quais observamos as situações, das perspectivas e das expectativas que temos.

Nas conversas com os clientes e dentro de uma visão autocrítica, percebo comportamentos distintos referentes à aceleração da inflação. Por óbvio, estamos todos insatisfeitos, contudo existem diferenciações quanto ao grau de insatisfação. Algumas pessoas apresentam um desconforto, outras demonstram preocupação e, em alguns casos, a aflição seria a melhor definição. E isso é normal!

Galileu Galilei

Por quê?

É bem possível que as pessoas que vivenciaram a década de 1980 no Brasil, e sentiram na pele os efeitos da inflação, tenham uma visão do momento que estamos vivenciando bem diferente das pessoas que viveram somente no período de inflação controlada, que coincide com a implementação do Plano Real. A relação com o dinheiro foi construída sob bases diferentes.

Nesse sentido, não posso esperar que todos respondam ao conteúdo que entregamos da mesma forma, tampouco julgar quando supõem que a nossa visão está ou não aderente à realidade (que, neste caso, é personalíssima) e muito menos presumir que todos tomarão a mesma decisão quanto à alocação dos portfólios e possuirão o mesmo nível de satisfação com o nosso trabalho nos diferentes cenários econômicos.

O que posso afirmar é que, para os assessores do escritório, cada cliente é único, e temos como essencial o desenvolvimento da empatia, conceito que importo da psicologia, que pode ser entendida como a capacidade de ponderar e respeitar os anseios do outro, de se colocar no lugar dos diferentes indivíduos, experienciar o que a outra pessoa sentiria caso estivéssemos na mesma situação. É um meio de aproximação das realidades e estabelecimento de conexões estáveis em prol dos resultados financeiros e dos resultados emocionais que se traduzem pela serenidade, a tranquilidade e a confiança que a evolução patrimonial está resguardada.

Entretanto, empatia não significa agradar o outro a qualquer custo, pelo contrário. É entender o indivíduo para que assuntos mais conflituosos encontrem espaço para assimilação.

Portanto, retomando ao tema econômico latente, estamos sim vivenciando um processo inflacionário e, sobre ele, faço algumas considerações um pouco mais técnicas:

Até o momento, estamos muito distantes de uma situação como a ocorrida na década de 1980, quando a inflação chegou a mais de 80% por mês, período em que não tínhamos implementado o Plano Real e os seus três pilares que são (i) câmbio flutuante, (ii) metas fiscais e (iii) metas de inflação. Apesar das tentativas recentes de rompimento e da fraqueza demonstrada, os três pilares permanecem presentes. Assim, ainda não há espaço e nem motivos para pânico.

O processo inflacionário atual é um fenômeno global já que, devido à pandemia, tivemos injeção maciça de papel moeda nas economias, rupturas nas cadeias de suprimento com diminuição da oferta de produtos, além do forte aumento no preço dos alimentos. Adicionalmente, com a suspensão das rígidas restrições de circulação ao redor do mundo, ocorreu um súbito aumento de demanda por energia e falta de mão de obra em diversas posições.

Com o ritmo atual da inflação brasileira e o nível das taxas de juros definidas pelo Banco Central (atualmente em 7,75% a.a.), é improvável que portfólios conservadores e com liquidez diária superem o IPCA nas próximas três janelas mensais. Contudo, com a atuação do Banco Central, é plausível pensarmos em uma reversão desta tendência em breve.

O Banco Central está empenhado em recuperar o controle sobre as expectativas inflacionárias e já pactuou em seus comunicados novas elevações da Selic, buscando equacionar o hiato entre as taxas básicas de juros e a inflação.

Conforme gráfico abaixo, notem que, na última década, as taxas de juros definidas pelo Banco Central permaneceram consideravelmente acima do IPCA

A exceção é o período pandêmico, notadamente a partir de abril de 2020. 

Assim, para o horizonte mais curto, é possível superarmos a inflação, com algum controle de risco, investindo em renda fixa atrelada ao IPCA + Prêmio. Todavia, é necessário entender que os recursos direcionados a esse tipo de investimento podem sofrer marcação a mercado, normalmente possuem prazos de vencimento acima de 24 meses e, a depender da inflação e do tipo de papel (se isento de Imposto de Renda ou não), o índice pode não ser ultrapassado.

Desta forma, imobilizar todo o capital em papéis IPCA + Prêmio de baixa rentabilidade pode ser prejudicial ao portfólio no longo prazo, com retornos abaixo da média de mercado sacrificando o futuro por uma satisfação de curto prazo. 

Diante de todo o exposto, não tenho a pretensão de exigir mudanças drásticas nas convicções de cada leitor, já que a experiência adquirida ao longo da vida é de grande relevância e, em parte, define quem somos hoje. O desejo é que todos estejamos abertos à possibilidade de avaliarmos uma lógica distinta das nossas preconcebidas convicções, para que sejamos gradualmente mais assertivos nas alocações dos portfólios e evoluamos enquanto investidores. 

Daniel Perdomo.

Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.