March 31, 2022

Blues

por Daniel Perdomo

Como somos diferentes, não espero que todos conheçam e gostem de Blues e vale ressalvar que não sou músico e muito menos um catedrático do gênero. Enquadro-me como um simples apreciador, que estuda a história e as raridades deste estilo musical. 

Ao ouvir John Lee Hooker, Howlin’ Wolf, Buddy Guy e B.B King pela primeira vez, no auge da minha ignorância, achei que as melodias eram muito semelhantes e que as músicas eram mais do mesmo.

É claro que meu ouvido não estava habituado e que cometi um erro de avaliação. De fato, o Blues tem características e limites únicos que se perpetuam de geração em geração. Dentro destas premissas, existem aquelas responsáveis por garantir a essência técnica e por associarmos uma melodia ao gênero nos primeiros segundos de escuta, como a escala pentatônica (suas variações) e os doze compassos.

E por mais contraintuitivo que possa parecer, é essa rigidez técnica, com premissas bem definidas, que proporciona ao Blues resultados magníficos. Para se diferenciarem dentro deste contexto, os músicos transcendem a austeridade instrumental e oferecem muito mais do que simples canções: entregam um estado de espírito, um sentimento perfeitamente tangível.

Na minha visão, o processo de alocação de ativos é como o Blues. Existem algumas premissas que também devem ser respeitadas, já que foram testadas ao longo de muitos anos por diferentes investidores profissionais e que chegaram prontas para a minha geração:

• A margem de segurança e o controle de risco de Benjamin Graham.

• A diferença entre preço e valor e o longo prazo de Warren Buffet.

• A racionalidade, paciência e disciplina de Charlie Munger.

• A teoria dos custos mínimos de Jack Bogle.

• Os movimentos pendulares de Howard Marks.

• A antifragilidade de Nassim Taleb.

• As relações de causa e efeito de Ray Dalio.

• A diversificação e o cronograma de liquidez de David Swensen.

Os desdobramentos destas fronteiras podem ser lidos em publicações anteriores e acredito serem interessantes para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer.

Ampliando os dizeres da Carta para o campo institucional, somos bastante rígidos ao apresentarmos as nossas premissas para os investidores para que decidam quais ativos farão parte dos portfólios. Na nossa visão, essa inflexibilidade é a principal responsável pelo objetivo comum dos integrantes do escritório que é a preservação patrimonial. Não faz nenhum sentido despejar proposições e narrativas originais, mas ineficientes. Por isso, respeitamos e seguimos os ensinamentos daqueles que colocaram a pele em risco e entregaram resultados consistentes ao longo do tempo.

Dentro do processo de construção dos portfólios, após evitarmos os caminhos das perdas irrecuperáveis, o próximo passo é buscarmos a evolução do patrimônio – e esta etapa é a mais complexa. Como observado ao longo do texto, para termos resultados consistentes as premissas técnicas devem ser observadas, mas somente o alinhamento destes limites com o denso conhecimento dos aspectos familiares, comportamentais e sociais dos investidores proporcionará atingirmos o ponto de inflexão entre o regular e o ótimo. E isso demanda tempo!

Conversando com um investidor sobre o cenário e os resultados do portfólio, fui perguntado se a estratégia que definimos não poderia ser replicada para outros clientes. Explicou que se, em 3 anos, ele obteve resultados positivos mesmo enfrentando eleições, pandemia, eventos políticos adversos e a recente guerra na Ucrânia, a alocação de ativos dele deveria ser um espelho. Em linha com o citado nas linhas acima, respondi que cada investidor é único e que as decisões que ele tomou e, principalmente, aquelas que ele não tomou são fortemente responsáveis por essa consistência. Determinados ativos estão presentes no patrimônio porque são adequados ao comportamento esperado dele em determinados eventos (negativamente assimétricos ou não). Não queremos que o investidor incorra no risco de adquirir ou vender ativos por meio de gatilhos mentais e não por fundamentos.

Deste modo, vejo outra possível simbologia com o Blues. Temos a nossa rigidez técnica que foi herdada e está em constante desenvolvimento, e aquilo que transborda a parte processual: somos genuinamente estudiosos da individualidade dos nossos investidores e buscamos incessantemente o alinhamento com os objetivos de cada um. Cientes da complexidade da execução, confiamos que essa sinergia entre método e relações humanas é essencial para os resultados dos investimentos, propiciando uma evolução patrimonial contínua. 

O que não pode ser inferido de todo este texto é que estamos nos comparando com os grandes artistas do Blues. A única interseção viável dentro deste prisma é a grande paixão que temos pelos respectivos ofícios.

Daniel Perdomo.

Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.